quarta-feira, 16 de setembro de 2009

56. CRESCER

Felipe era meu vizinho, e também meu melhor amigo. Ele era aquele tipo de pessoa que não se conforma com o mundo, nem com a pobreza, e estava sempre reclamando da hipocrisia das pessoas. Por um lado isso era legal, não me deixava cair no conformismo; mas por outro, às vezes, aquele papo filosófico e as crises existenciais cansavam. Não sei dizer se ele era feliz. Ele via beleza nas coisas mais simples da vida, mas acho que não conseguia aproveitá-las, estava sempre indignado com alguma coisa.

Um dia ele estava me falando sobre fugir daquela vida, não aguentava mais a manipulação, a fofoca, aquela falsa felicidade. Eu dizia para ele que não era tão complicado assim, que a felicidade era bem mais simples do que ele imaginava, que ela estava espalhada a nossa volta. Bastava não pensar nos problemas a toda hora!

— Eu não sei, a liberdade por si só, é tentadora demais. Se você se encontra numa rotina, você se encontra preso, sendo julgado e controlado a todo o momento. Ir embora pode lhe parecer dramático demais, mas é melhor do que me acomodar.

Eu parei um pouco, e respondi que aquilo tudo era besteira, que ele era feliz, que devia aproveitar um pouco a vida, sabe? Nem todos os problemas do mundo eram culpa dele, então porque ele insistia nessa ideia?

— Não, eu não acho que todos os problemas sejam minha culpa, só não sei como você dorme tranqüila, enquanto o mundo vive esse genocídio. Esse holocausto informal.
Era óbvio que ele tinha a razão, mas mesmo assim cochichei: “O mundo não é tão ruim assim”. Ele não respondeu, e ficou ali olhando para o tênis velho que usava.
Semanas depois, percebi que ele tinha esquecido toda aquela história de fugir, e que estava bem de novo.

Tempos depois, eu o observava enquanto comíamos. Vi que ele mudara. Não tinha mais aquele brilho nos olhos, aquela indignação. Ele cresceu, se conformou. E juntamente com a indignação, foi-se embora o desejo de fugir, de revolucionar. Ele mudou assim como todos mudamos. Afinal, já quisemos e acreditamos que iríamos mudar o mundo. O que acontece então? Absolutamente nada. Apenas crescemos.


Aline Assumpção - 1102

11 comentários:

  1. Acho que já disse isso em algum outro comentário em que fiz aqui: todos nós, um dia, já dissemos que iríamos mudar o mundo. Mas nós crescemos e é posta em nossa cabeça a idéia de que isso é impossível, e passamos a, simplesmente, nos conformar. E então nada muda. Éramos todos crianças que queriam mudar o mundo. Somos todos adultos que nos conformamos em viver em um mundo sempre igual. Se o mundo fosse feito apenas de crianças, certamente seria muito diferente.

    Barbara Bottino - 1202

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  2. Gostei muito do seu texto Aline, você escreveu o que quase todas as pessoas pensam mas não tem coragem de falar, não querem assumir que quando crianças queriam mudar o mundo, mas cresceram e se tornaram adultos conformados, sem esperanças e sem iniciativas. Muitos falam que as crianças sonham demais, querem o impossível, mas para mim elas que estão certas, deveríamos aprender com elas. Lutar por um mundo melhor não é nenhuma vergonha, é uma honra. Para os adultos é mais fácil reclamar e jogar a responsabilidade para as próximas gerações falando coisas como "Minha geração já está corrompida, não tem mais jeito, agora nossas esperanças estão em vocês jovens, o mundo depende de vocês". Esse discurso já permance por gerações e nada muda.

    Mariana Taufie n°21 turma:1201

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  3. todos falam que querem mudar o mundo mas na realidadae poucos são os que tem a coragem de começar com alguma coisa para ajudar esse discurso de mudar o mundo já ta gravado na cabeça de todos mas isso não quer dizer que as pessoas que tem esses discursos vão tentar mudar o mundo
    Pedro lourenço lacerda 1101

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  4. É verdade, pensamos quando crianças em mudar o mundo, mais com o passar do tempo vemos que isso não é tão simples. Para confrontar o mundo e suas "crenças" temos que estar apitos a ser criticado e ofendido o tempo todo, temos que abrir mão de varias coisas como a felicidade.

    Vemos na história poucas pessoas que se submeteram a isso.

    Parabéns Aline!

    Caio Denecke 1101

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  5. Acredito que sim, podemos mudar o mundo. Como a Barbara disse, nos impõem que é impossível. Infelizmente, para má sorte deles, não existe a palavra "impossível" no meu vocabulário. Ótimo texto, Aline.

    Rodrigo Gonzalez - 1101 Nº10

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  6. Aline, o seu texto está maravilhoso !
    Ele mostra que nem sempre crescer é bom. Muitas pessoas quando crescem, se contentam com a realidade e desistem de mudar o mundo; assim virando adultos frustados, que não conseguiram realizar os seus sonhos.
    Porém, não podemos nos tornar adultos como esses. Nossa vontade de mudar o mundo não pode morrer.
    Parabéns de novo Aline, amei o seu texto !

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  7. Todos querem mudar o mundo, poucos conseguem, a maioria esquecem no meio do caminho, desistem, não por maldade ou por intenção, mas que por diversas vezes tem que arcar com as dívidas, os erros daqueles que não tentaram mudar, fazendo assim um ciclo, no qual as pessoas sonhadoras, que pensam em mudar, são completamente atraídas pelos seus problemas do dia-a-dia, parabéns pelo texto.

    André Vuaden - 1101

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  8. O texto está muito bom mesmo. Nem tudo é impossível, quando não se está sozinho. O problema é que quando se está sozinho, você vira minoria, uma minoria conformada. Se crescer fez bem pra ele, que bom, apesar que conformando-se ele nunca vai conseguir fazer nada. Conformar-se é o que eu achava, pelo menos, que tinha que fazer, mas esse texto me fez pensar: ''se todos se conformarem, viveremos assim eternamente..'' o que é uma coisa muito desagradável.

    Aléxia, t: 1102, n: 11

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  9. Posso dizer que desejo para mim e para todos que conheço que isso nunca aconteca, crescer sempre fora meu maior medo, e se crescer vai trazer para mim o fim das indagações e o conformismo com os problemas prefiro continuar da maneira que estou, perguntando, questionando, e querendo sempre mais.
    o texto está muito legal !

    Vanessa Kranen 1202

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  10. É verdade que não devemos nos preocupar tanto com as injustiças impostas pelo mundo à nós, senão acabamos tristes e desanimados. Por outro lado, nós não podemos esquecer em momento algum que esse problemas existem, e fazer pelo menos o mínimo para tentar contorná-lo.

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  11. Aline, gostei muito do seu texto. Chega a ser engraçado como mudamos e caimos no conformismo ao longo de nossas vidas. Vemos uma juventude que quer mudanças mas que em alguns anos não vai mais se preocupar com a desigualdade, violência, pobreza, saúde precária... como aconteceu com tantas outras que vieram antes.

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